Capítulo UHL 1250 - Antes do Esperado
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Quando a reunião terminou, ninguém saiu com pressa. Talvez porque sair rápido demais fizesse parecer que a decisão era simples. Talvez porque cada um daqueles líderes soubesse que, ao atravessar a porta daquela sala, carregaria consigo uma parte do peso que tinha acabado de ser aceito. A ideia de uma ação preventiva já não era uma provocação lançada por Zao Tian no centro de uma mesa. Ela havia sido acatada. Não como certeza ou como uma estratégia confortável, mas como uma possibilidade necessária, como uma dessas decisões que ninguém deseja tomar e, justamente por isso, acaba se tornando a única que ainda preserva algum valor.
Daren foi o primeiro a se levantar, silencioso. Momoa saiu depois, ainda carregando no corpo aquela impaciência de quem preferiria resolver o medo com os punhos, mas entendia que a guerra que se aproximava não permitiria esse tipo de infantilidade. Hakim caminhou sem dizer nada, com os ombros pesados, talvez já pensando em Gard, em seus próprios soldados, em seus civis, em tudo aquilo que teria de ser explicado a um povo que mal começava a respirar depois de séculos sufocado pelas castas. Yan Chihuo saiu por último entre eles, e, dessa vez, nenhuma piada ficou pendurada em seus lábios. Isso talvez fosse o sinal mais claro de que a reunião tinha tocado em algo sério demais.
Yang Hao também se retirou, levando consigo a memória do pai e o fantasma de Krishna diante da antiga Dinastia Yang.
Quando o último deles deixou a sala, as portas se fecharam com um som baixo, e o ambiente, antes ocupado por vozes graves e objeções difíceis, ficou grande demais.
Zao Tian permaneceu de pé ao lado da mesa.
Ming Xiao também.
Os dois não falaram nada no primeiro instante. Apenas ficaram ali, um diante do outro, com a luz das matrizes ainda flutuando ao redor em linhas tênues, mapas incompletos de planetas, rotas e zonas de risco que pareciam pequenas demais para representar o tamanho real do problema. A sala estava vazia, mas a decisão continuava presente. Ela ocupava as cadeiras. Pesava sobre a mesa. Respirava no espaço entre eles.
Zao Tian olhou para Ming Xiao como se procurasse nele uma confirmação que não ousava pedir em palavras.
Ming Xiao sustentou aquele olhar do mesmo jeito.
Nenhum dos dois estava feliz.
Isso, de alguma forma, era importante.
Se algum deles estivesse animado demais com a ideia de atacar primeiro, talvez significasse que tinham perdido algo essencial no caminho. Um ataque preventivo contra os deuses não era uma aventura gloriosa, não era um teste de coragem, não era um ato heroico simples o bastante para ser cantado em versos. Era uma escolha suja. Talvez necessária, mas ainda suja. Significava aceitar que a criação teria de derramar sangue antes que todo o sangue derramado pudesse ser chamado de defesa.
Depois de alguns segundos, Ming Xiao acenou devagar.
Zao Tian respirou fundo e também acenou.
Aquilo não era certeza de que estavam certos. Era apenas a confirmação de que, errados ou não, estavam diante do mesmo abismo.
"Então começamos." Ming Xiao disse.
A voz dele não tremeu, mas estava mais baixa do que o habitual.
Zao Tian passou a mão sobre a mesa e desfez parte das projeções. As linhas de energia se apagaram uma a uma, até restarem apenas três pontos luminosos suspensos: Decarius, Uhr’Gal e uma região distante onde os territórios élficos se espalhavam como raízes finas. Ele ficou encarando aquele último ponto por tempo suficiente para Ming Xiao entender antes mesmo que a decisão fosse anunciada.
"Os elfos." Ming Xiao comentou.
"Precisaremos deles mais cedo do que gostaríamos." Zao Tian respondeu: "Não dá para esperar até que a coalizão esteja unida. Se Elyndariel nos apoiar agora, a presença dela pode impedir metade das hesitações."
"E se ela não apoiar?" Ming Xiao perguntou.
Zao Tian olhou para o ponto luminoso, e respondeu: "Então vamos descobrir o real tamanho do problema antes de colocar todos na mesma sala."
Ming Xiao não respondeu, mas sua expressão deixou claro que concordava.
Zao Tian retirou um amuleto de transmissão sonora de dentro da roupa. Era pequeno, trabalhado em metal escuro e atravessado por linhas espirituais tão finas que pareciam rachaduras de luz. Ele segurou o objeto na palma da mão por alguns segundos sem ativá-lo. O gesto parecia simples, mas havia algo quase cruel nele. Ye Yang tinha acabado de se casar. Depois de tantas guerras, perdas, fugas, retornos impossíveis e ameaças que sempre pareciam encontrar um jeito de voltar, aquele casamento com Elyndariel tinha sido uma das poucas coisas parecidas com uma vitória pessoal que alguém próximo a Zao Tian recebeu nos últimos tempos.
E agora ele teria de interromper isso.
Zao Tian ativou o amuleto e a matriz brilhou entre seus dedos, pulsando uma vez, depois outra. Por alguns instantes, houve apenas estática, um ruído baixo e distante, como vento passando por folhas metálicas. Então a conexão se firmou, e a voz de Ye Yang surgiu do outro lado.
"Zao Tian!" Ele respondeu, e a empolgação era evidente.
Aquela empolgação era leve, rara, algo difícil de ouvir naquela fase da vida deles. Ye Yang parecia genuinamente feliz. E a felicidade dele, por algum motivo, atingiu Zao Tian com mais força do que a preocupação teria atingido.
"Você demorou para chamar." Ye Yang continuou, com uma risada curta: "Eu estava começando a achar que finalmente tinha aprendido a parar de trabalhar tanto."
Zao Tian fechou os olhos por um breve instante.
Do outro lado, Ye Yang não percebeu de imediato e continuou falando, quase sem dar espaço: "Sinceramente, acho que o casamento foi uma das melhores decisões que já tomei. Eu imaginava que as núpcias seriam boas, mas…"
"Ye Yang." Zao Tian interrompeu, com cuidado.
A voz dele fez a alegria do outro lado diminuir um pouco.
Ainda havia leveza, mas a atenção mudou.
"O que aconteceu?" Ye Yang perguntou.
Zao Tian olhou para Ming Xiao. O outro apenas permaneceu em silêncio, deixando que ele conduzisse.
"Eu sinto muito." Zao Tian disse.
Houve uma pausa pequena do outro lado.
"Isso não é uma frase que combina com boas notícias." Ye Yang comentou.
"Não é." Zao Tian respondeu: "E eu odeio ter que te chamar agora. Sei que você acabou de se casar. Sei que deveria estar com Elyndariel, longe desse tipo de coisa pelo menos por mais alguns dias."
Ye Yang soltou um ar baixo, e parte da brincadeira desapareceu de sua voz: "Zao Tian, o que foi?"
"Eu vou ter que pedir algo complicado." Zao Tian respondeu.
Dessa vez, a mudança foi completa.
Ye Yang não respondeu com piadas. Não fingiu leveza. Talvez porque conhecesse Zao Tian bem demais. Se ele dizia aquilo naquele tom, não se tratava de uma pequena missão, nem de um pedido incômodo. Era algo que geralmente puxava o futuro pela garganta.
"Fale." Ye Yang disse.
Zao Tian respondeu: "Antes, preciso te contar tudo."
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Alguns momentos se passaram.
Não foram momentos simples.
Zao Tian falou e Ming Xiao completou quando necessário. Eles contaram a Ye Yang o que Curupira tinha revelado em Uhr’Gal, o início da Grande Guerra, a visão do Pai de Todos, o medo divino diante do Fim dos Tempos, os tratados impostos a líderes antigos, o isolamento do Reino da Luz, a ascensão de Zaki, a caçada a Gold, o papel de Krishna, a morte do Pai de Todos, o ataque ao Salgueiro da Vida, o nascimento dos sem-cultivo como uma consequência possível da ruptura, a movimentação atual do Reino Divino e o retorno de Geb. Também contaram sobre a discussão com os líderes de Decarius, sobre a aceitação relutante de uma ação preventiva e sobre a necessidade de levar essa proposta para a coalizão antes que os deuses escolhessem o próximo campo de batalha.
Do outro lado do amuleto, Ye Yang não interrompeu muito.
Isso, por si só, era estranho.
Ye Yang fazia perguntas quando estava curioso, provocava quando queria esconder desconforto e divagava quando percebia uma brecha. Mas, naquele relato, ele ficou quieto por longos períodos. Às vezes, soltava apenas um som baixo, suficiente para mostrar que ainda estava ouvindo. Em outros momentos, fazia uma pergunta curta e precisa. Quando Zao Tian mencionou a possibilidade de Krishna já estar reorganizando o panteão com base nas lições da primeira guerra, Ye Yang ficou calado por tanto tempo que o amuleto pareceu ter perdido a conexão.
Mas não tinha. Ele estava apenas pensando.
Quando Zao Tian terminou, a sala em Decarius voltou a ficar silenciosa.
Dessa vez, o silêncio também estava do outro lado.
Então Ye Yang soltou um suspiro comprido: "Isso é uma merda."
Zao Tian não respondeu.
Ye Yang continuou, e agora a voz dele tinha aquele cansaço irritado de quem queria muito estar diante de um problema menor: "Não, sério. Isso é uma merda completa. Esse mundo é uma merda. Esse universo é uma merda. Toda vez que parece que encontramos um fundo, alguém abre um alçapão e mostra que ainda tem mais desgraça embaixo."
Ming Xiao ergueu levemente uma sobrancelha, mas não discordou.
Ye Yang prosseguiu: "Eu acabei de casar, Zao Tian. Casei. Eu deveria estar descobrindo costumes élficos estranhos, tentando entender por que eles precisam de doze bênçãos para uma refeição e fingindo que entendo metade dos olhares que Elyndariel troca com os anciãos. Em vez disso, estou ouvindo que a origem da Grande Guerra foi pior do que a versão ruim, que Krishna é um problema ainda maior do que já era, que Geb voltou, que a Trindade pode estar envolvida, que os deuses estão se movendo e que vocês decidiram cutucar o ninho antes que ele venha até nós."
Zao Tian apertou o amuleto com um pouco mais de força.
"Sim."
"Ótimo." Ye Yang disse, sem qualquer entusiasmo: "Perfeito. Maravilhoso. O casamento realmente me trouxe paz por quase três dias. Um recorde."
Zao Tian quase teria sorrido em outro momento. Naquele, apenas abaixou um pouco o olhar.
Ye Yang então perguntou, mais sério: "O que você precisa que eu faça?"
A pergunta era simples.
A lealdade por trás dela, não.
Zao Tian demorou um instante antes de responder, porque o pedido parecia ainda mais pesado agora que a alegria inicial de Ye Yang tinha sido apagada.
"Eu esperava fazer esse pedido muito depois." Zao Tian disse: "Depois que vocês tivessem tempo. Depois que Elyndariel pudesse consolidar a própria posição sem que a nossa guerra caísse sobre o casamento de vocês."
"Mas não temos esse tempo." Ye Yang concluiu: “Nunca tivemos esse luxo.”
"Não." Zao Tian respondeu: "Não temos."
Ye Yang: "Então fale."
Zao Tian encarou o amuleto e prosseguiu: "Preciso que você converse com Elyndariel."
Do outro lado, Ye Yang não respondeu de imediato.
Zao Tian continuou: "E preciso que convença ela a persuadir os elfos a apoiarem a proposta quando ela for levada à coalizão."
A pausa seguinte foi diferente.
Ye Yang não parecia ofendido. Parecia calculando o tamanho do desastre social, político e conjugal que aquela frase poderia abrir.
"Você quer que eu, recém-casado com uma das figuras mais importantes entre os elfos, peça a ela para usar influência sobre o próprio povo para apoiar um ataque preventivo contra os deuses." Ye Yang disse.
"Sim." Zao Tian confirmou.
"Isso, poucos dias depois do casamento." Ye Yang mencionou.
"Sim." Zao Tian afirmou.
"Enquanto eu ainda estou tentando entender quais antigos pretendentes e inimigos dela querem me matar, quais querem me avaliar, quais querem me comprar e quais só estão esperando eu cometer um erro de etiqueta para provar que humanos são criaturas sem refinamento." Ye Yang insistiu.
Zao Tian respirou fundo e respondeu: "Sim."
Ye Yang ficou quieto por dois segundos, antes de alfinetar: "Você realmente sabe escolher o momento certo de fazer as coisas."
"Pois é!?." Zao Tian respondeu.
"Isso não foi um elogio." Ye Yang corrigiu.
"Eu sei." Zao Tian concordou.
Ming Xiao, ao lado de Zao Tian, olhou para o amuleto com uma expressão quase neutra, mas seus olhos indicavam que a conversa ainda poderia ser salva justamente pela franqueza. Ye Yang podia reclamar, mas não fugiria. Esse sempre foi um dos traços mais irritantes e confiáveis dele. Ele reclamava antes de aceitar, durante a aceitação e, muitas vezes, depois de cumprir. Mas aceitava.
"Zao Tian." Ye Yang disse, agora mais sério: "Eu vou falar com Elyndariel. Mas você precisa entender uma coisa sobre os elfos."
"Prossiga." Zao Tian pediu.
Ye Yang continuou: "No pouco tempo que estou convivendo com eles, aprendi que os elfos são guerreiros. De verdade. Eles tentam vestir tudo com excesso de civilidade, cerimônia, tradição, beleza, poesia, música e aquelas pausas longas em que todo mundo finge estar refletindo sobre o peso das eras, mas, por baixo disso, eles são guerreiros."
Zao Tian escutou com atenção.
"Eles não sobreviveram tanto tempo sendo frágeis." Ye Yang continuou: "Não conquistaram respeito só plantando árvores bonitas e falando com elegância. Eles têm seus campeões, têm seus métodos, têm uma longa história e têm orgulho suficiente para entrar em uma guerra se acharem que a guerra ameaça a posição deles no universo."
"Isso é bom." Zao Tian disse.
"É." Ye Yang respondeu: "Mas também tem o outro lado. Eles são oportunistas."
Ming Xiao ergueu o olhar.
Ye Yang continuou: "E eu não digo isso só como insulto. Embora seja também um insulto. Eles sempre querem ganhar algo em cima de qualquer acordo. Sempre. Se oferecem ajuda, querem uma contrapartida à altura. Se aceitam uma aliança, querem garantias. Se entram em risco, querem que o risco volte para eles como influência, recursos, vantagem, posição ou dívida. Eles não vão apoiar uma ação preventiva porque é sensato. Eles vão perguntar o que ganham quando ao colocar os campeões deles na linha de frente."
Zao Tian franziu o cenho: "Isso pode dificultar tudo."
Antes que Ye Yang respondesse, Ming Xiao falou ao lado dele: "Ou pode ajudar."
Zao Tian olhou para Ming Xiao.
Ye Yang também pareceu ouvir com atenção do outro lado.
Ming Xiao se aproximou um pouco da mesa e explicou: "Se eles pensam em ganhos pessoais, a negociação pode ser construída em termos mais objetivos. Talvez seja melhor do que tentar apelar apenas para uma consciência coletiva, ou para uma ideia grandiosa de defesa da criação."
Zao Tian olhou para ele com mais atenção.
Ming Xiao continuou: "Uma negociação puramente bélica depende de medo, honra ou urgência. Uma negociação moral depende de eles aceitarem nossa leitura do perigo. Mas uma negociação comercial, política e estratégica permite que eles entrem não como subordinados de uma causa humana, e sim como parceiros que receberão algo em troca do risco."
Ye Yang soltou um som baixo do outro lado: "Eu odeio admitir, mas ele está certo."
Zao Tian passou os dedos pela superfície da mesa, desfazendo e refazendo pequenas linhas de energia no mapa.
"O que você sugere que seja oferecido?" Ele perguntou a Ming Xiao.
Antes que Ming Xiao respondesse, Ye Yang falou: "Poder."
A palavra veio seca.
Ye Yang continuou: "A única coisa que os elfos realmente se importam, no fim, é poder. Eles podem chamar de preservação, equilíbrio, legado, continuidade, refinamento ou qualquer palavra bonita que caiba em uma cerimônia de quatro horas, mas, no fim, é simplesmente poder. Poder para proteger os territórios deles. Poder para manter a influência deles. Poder para não serem tratados como peças menores em uma coalizão liderada por humanos, orcs e outros monstros que eles consideram brutos demais."
Ming Xiao ficou em silêncio, mas parecia concordar.
"Se vocês oferecerem a eles poder real..." Ye Yang prosseguiu: "A influência de Elyndariel talvez nem seja tão necessária. Os próprios elfos vão fazer fila para ajudar. Vão chamar de dever ancestral, claro. Vão usar roupas elegantes, cantar alguma coisa triste sobre estrelas antigas, fingir que não estão lambendo os beiços por dentro e então aceitarão."
Zao Tian fechou os olhos por um instante, pensando.
"Nós já mandamos toneladas de armas de primeira linha para eles." Ele disse: "Armas do Arsenal de Gilgamesh. Não foram sobras."
"Eu sei." Ye Yang respondeu: "E eles sabem também. Essas armas importam. Muito. Mas não são as armas que realmente mudam a conversa que precisaremos ter."
A insinuação foi clara demais para ser confundida.
A sala pareceu ficar mais fria, ainda que nada ali tivesse mudado.
Zao Tian abriu os olhos.
Ming Xiao também entendeu no mesmo instante.
Ye Yang não precisava dizer o nome.
A Forja de Hefesto.
O artefato capaz de criar Armas do Espírito. Não armas poderosas comuns, não relíquias de um arsenal histórico, não lâminas antigas retiradas de algum depósito. Armas do Espírito. Extensões de alma. Ferramentas capazes de transformar um grande cultivador em algo incomparavelmente mais perigoso. O tipo de presente que não parecia um mero presente, mas uma redistribuição de futuro.
Zao Tian não respondeu imediatamente. A relutância dele era visível.
Não era por mesquinharia, ou por apego infantil a recursos, mas porque oferecer Armas do Espírito como moeda política era uma decisão com consequências profundas. Cada arma que fosse entregue mudaria hierarquias internas. Fortaleceria casas que talvez nem sempre permaneceriam aliados. Criaria dívidas, expectativas, ressentimentos em outros povos, exigências equivalentes. Se os elfos recebessem, os orcs pediriam. Os gigantes exigiriam. Os krovackianos ameaçariam abandonar a coalizão se fossem tratados como inferiores. E, de repente, aquilo que começou como uma tentativa de unir a criação poderia se transformar em uma disputa por quem receberia mais poder de Decarius.
Ming Xiao percebeu o pensamento dele.
"Se esse caminho for aberto, não poderá ser fechado facilmente." Ele disse.
"Eu sei." Zao Tian respondeu.
Ye Yang, do outro lado, completou: "E os elfos também saberão. Por isso vão querer."
Zao Tian olhou para o mapa por mais alguns segundos. Ele pensou nos deuses se fortalecendo no Reino Divino, em Krishna consolidando o panteão, em Hefesto talvez forjando outros horrores que eles ainda nem imaginavam, em Geb sendo usado como uma memória viva da guerra antiga, na Trindade solta como um veneno sem recipiente. Pensou nos líderes que haviam acabado de sair daquela sala aceitando uma proposta que, poucas horas antes, pareceria impensável.
Ele percebeu naquela hora, mais do que nunca, que todas as negociações seriam custosas daquele ponto em diante.
Esse era o mundo real.
Alianças puras eram bonitas em histórias contadas depois das guerras. Antes e durante, elas eram feitas de medo, dívida, vantagem, esperança, cálculo e um pouco de coragem. Zao Tian odiava aquilo, mas odiar não mudava nada.
"Ye Yang." Ele disse.
"Estou ouvindo." Ye Yang respondeu.
Zao Tian continuou: "Converse com Elyndariel primeiro, mas não entregue todas as cartas.”
"Ela será a primeira a chegar no ponto que o Ming Xiao mencionou."
"Eu sei." Zao Tian disse: "Faremos um teste com ela e, depois, se ela concordar, negocie com os elfos. Descubra o preço que teremos que pagar e para quantos teremos que pagar."
Zao Tian demorou alguns segundos antes de frisar: "Não mencione as Armas do Espírito no início. Deixe que eles peçam, pois se houver a chance de pagarmos um preço menor pelo apoio deles, eu prefiro essa opção."
Ye Yang soltou um pequeno riso sem humor: "Isso significa que você já aceitou que elas podem entrar na mesa."
Zao Tian apertou a mandíbula.
"Se for necessário..." Ele respondeu: "Daremos algumas aos elfos que forem lutar."
Ming Xiao não demonstrou surpresa, mas seu olhar ficou mais sério. Aquela frase não era pequena. Não era apenas uma concessão. Era um precedente.
Zao Tian continuou: "Não será, de jeito nenhum, para um ancião qualquer guardar em um salão. Não será para enriquecer famílias. Não será para aumentar prestígio interno. Se Armas do Espírito forem entregues, serão exclusivamente para os combatentes que entrarão na campanha preventiva. E com termos claros."
"Os elfos vão tentar contornar isso." Ye Yang avisou.
Zao Tian respondeu: "Então você vai impedir."
"Eu?" Ye Yang retrucou, antes de completar: “Eu estou aqui a pouco tempo, mas já vi mais do que gostaria o quanto eles são ardilosos.”
Zao Tian soltou o ar devagar: "Apenas… deixe que eles digam primeiro."
"Isso eu posso fazer." Ye Yang respondeu: "Quando eles querem muito alguma coisa, ficam tão ocupados tentando parecer desinteressados que acabam revelando exatamente onde está a fome."
"Então… você consegue?" Zao Tian perguntou.
Ye Yang demorou um pouco mais para responder dessa vez.
"Consigo." Ele finalmente disse.
Zao Tian fechou os olhos por um instante e apenas respondeu: "Obrigado."
"Não agradeça ainda." Ye Yang respondeu: “Ainda tem muito cachorro pra sair desse mato.”
